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Manoel Pastana: um paraense apaixonado por Ex-líbris

Atualizado: 10 de abr. de 2021


Em uma vila chamada Apéu pertencente ao município de Castanhal no Pará, em 1888 nasce o patrono das artes paraense, Manoel Pastana, pintor e desenhista autodidata, com trajetória que passa por sua atuação como desenhista e gravador da Casa da Moeda e membro ativo junto a diretoria do Museu de São Paulo. Acrescenta Maués:

"Foi professor, desenhista, pintor, ceramista e escultor, dedicando-se também à arte decorativa e aplicada, sem entretanto, nunca abandonar a pintura de cavalete"

Manoel Pastana estudou pintura com Theodoro Braga e, posteriormente com Francisco Estrada. Era também um apaixonado por ex-líbris tendo uma pequena coleção e executado alguns trabalhos nesta área. De acordo com Maués descreve a relação do artista sobre os ex-líbris:

“Fez o seu, de sua esposa Altair Pastana e o do filho Galileu, como também para Francisco Leite de Araujo. Seu interesse como ex-líbrista e colecionador é confirmada por sua participação como sócio contribuinte do Clube internacional de ex líbris em 1946.”




Sobre sua paixão em pesquisar e colecionar ex-líbris, em entrevista concedida a Revista Brasil Ex-líbrista (1956), Pastana afirma que:

Há várias classificação de ex-líbris, entre as quais citaremos as seguintes: heráldicos, paisagísticos, esportivos, eróticos, etc. Qualquer que seja a classificação, sua composição deve representar algo da personalidade do seu titular ‘simbolizando suas aspirações, sua fé religiosa, suas vaidades nobiliárquicas, suas predileções científicas ou suas convicções filosóficas”. Assim sendo, não é admissível que o possuidor de uma biblioteca adote várias marcas para os seus livros [...] (PASTANA, 1956).

Pastana possuiu um único ex-líbris no qual adota a divisa escrita em tupi guarani “xa iumuhe putári xa muhe recuiára”, segundo ele, significa: “Quero aprender em vez de ensinar”. A princípio isso pode nos parecer estranho vindo de alguém que foi professor em boa parte de sua vida, porém considero importante a reflexão feita por alguém que teve a oportunidade de conviver com ele, na qual enfatiza que preferir aprender em vez de ensinar é um grande gesto de humildade. É se colocar na vida como sendo um eterno aprendiz, pois está sempre aberto a assimilar novos conhecimentos, que não se fecha a novos conceitos e ideias.

Ao analisar o desenho de seu ex-líbris, nota-se que ele apresenta uma estrutura assimétrica que se dá nos detalhes de composição das formas sinuosas da flâmula, das ramagens de plantas e da tocha de fogo que buscam o equilíbrio formal nas compensações de massa de cada lado do desenho.

A composição é estruturada sobre a letra cursiva P, inicial do nome do artista, cuja curvatura na parte superior sustenta a divisa escrita em tupi guarani, cujo significado é essencial para compreensão da personalidade do artista. Ao centro da letra P, triângulo equilátero com um dos vértices apontando para baixo. No seu interior, desenho da cerâmica marajoara da figura estilizada de um sáurio triforme, animal muito utilizado, assim como sapo, para a decoração das peças arqueológicas. Na parte inferior do desenho, flâmula com a palavra Ex-líbris da qual se projetam para o lado esquerdo galhos de plantas e para o lado direito uma vasilha com labaredas de fogo. Abaixo do desenho vem seu nome escrito por extenso.


Os elementos presentes são simbólicos: o fogo representa o coração, quer o lado das paixões ou o lado do espírito, associa-se ao fogo o papel de purificação, o fundidor que precisa do fogo para fundir suas peças. O fogo pode ser considerado por suas chamas a ação fecunda da purificação, regeneração e iluminação.


Cada elemento foi pensado para refletir a personalidade de seu possuidor. A palavra em tupi, juntamente com as formas da cerâmica arqueológica remete a sua origem e a constituição de sua imagem. Pastana assume sua ancestralidade e propõe essa imagem de artista associado ao discurso sobre a produção de uma arte brasileira com inspiração nos indígenas e nos achados arqueológicos na Amazônia Brasileira, assim como a riqueza oriunda da fauna e flora brasileira.

Manoel Pastana faleceu com 95 anos em 25 de abril de 1984.


Quer saber mais sobre o Manoel Pastana e seu ex-libris então assista a live com a Renata Maués no canal da Caçadora de Exlibris.


Imagens: Coleção Luiz Fernando Carvalho


Referências:

MAUÉS, Renata de Fátima da Costa. Manoel Pastana (1888-1984): biografia de uma coleção. (2019). Dissertação (Mestrado Programa de Pós-Graduação em Artes, Instituto de Ciência da Artes), Universidade Federal do Pará, Belém.

MAUÉS, Renata de Fátima da Costa. Manoel de Oliveira Pastana: em busca de uma arte verdadeiramente nacional. ANPAP. Belém, p.780-94, 2013.

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