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Um padre, um corvo e seu ex-líbris

Atualizado: 21 de jul.


Por Mary Komatsu (Caçadora de Ex-líbris)


A história deste ex-líbris é fascinante!


Quando estive no Ateliê De Etser em São José dos Campos no ano passado, para conhecer o espaço e os trabalhos de gravura e ex-líbris dos artistas George Gutlich e Fabio Sapede, fiquei sabendo de uma história muito interessante sobre uma encomenda de um ex-líbris.

Trata-se da encomenda do ex-líbris de um padre! O Pe. Marcio Ferreira dos Santos Corrêa, residente em Curitiba, PR.

O gravador Fabio relatou que o Pe. Marcio tinha assistido a sua live na Caçadora de Ex-líbris. Imediatamente ele entrou em contato com o gravador para saber se produziria um ex-líbris. Depois de muito diálogo sobre a confecção do ex-líbris, o Pe. Marcio falou que gostaria que seu ex-líbris tivesse a imagem de um corvo, uma referência ao conto “O Corvo“ de Edgar Allan Poe. Fabio ficou entusiasmado pelo tema, pois é um dos seus contos preferidos.


Por coincidência naquele mesmo período, a artista Patrícia Brandstatter era residente no ateliê, e estava trabalhando em umas paisagens com monotipia e uma delas deu uma manchada, que lembrava um corvo. Que coincidência! Era a imagem perfeita para o ex-líbris do Pe. Marcio. Fabio pediu permissão a Patrícia para usar aquela imagem no ex-líbris do padre.


E o resultado ficou assim:

Ex-líbris de Marcio Santos Corrêa (Padre) Desenho: Fabio Sapede Técnica: Água Tinta

Para entender melhor, segue a descrição do ex-líbris por Pe. Marcio Ferreira dos Santos Corrêa:


Ao contrário de muitas pessoas, eu procuro ver uma mensagem positiva naquele poema. Sim, todos os elementos da prosa de Poe estão ali: o clima sombrio, a morte e o ser humano diante de algo maior, incompreensível e inevitável. Há, porém, (e pra mim) uma mensagem de esperança. Já me explico. O narrador é alguém que, diante da perda de uma pessoa muito amada, não vê mais sentido na vida. E se isola. É nesse sentido que interpreto o cenário do texto: um quarto fechado, à meia-noite, o frio do inverno e a disposição de fugir da dor (e do mundo?) pela leitura. Quando aquele corvo, porém, pousado sobre o busto de Atena, no alto da porta, repete insistentemente o seu "nunca mais", eu vejo um apelo, uma referência à necessidade de viver, de reagir, de continuar. É um verdadeiro "carpe diem": o corvo mostra que a verdadeira sabedoria (busto de Atena) está em continuar o caminho (a porta) porque aquilo que passou, não volta "nunca mais". Quem já perdeu pessoas queridas sabe como pode ser difícil essa tomada de consciência e mudança de atitude. Por isso a imagem do corvo é significante pra mim: eu já perdi muita gente. Também, enquanto sacerdote, a imagem me é pertinente, pois eu preciso, com muita frequência, ajudar pessoas que passam pela mesma situação. Além do mais, esse chamado a contemplar a brevidade da vida e a fragilidade humana — para valorizar a vida e viver intensamente — não é estranho à religiosidade cristã católica: muitos santos são representados portando nas mãos (ou tendo próximos a si) crânios humanos exatamente por este motivo. Enfim, o busto de Atena sobre a porta (onde o corvo permanece) mostra que a chave é o conhecimento (aquele de si e também o externo) que podemos associar (embora não exclusivamente) aos livros, à literatura. É por isso que essa imagem me parece tão adequada para um "ex libris".



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