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Ex-líbris de Mary Komatsu e seu processo de criação

Por Bruna Kim*


O ex-líbris da Mary Komatsu foi muito especial de fazer, acabamos construindo juntas. Ela havia recém-ganhado um ex-líbris do Gerson Witte, para a Caçadora de Exlibris, e o que eu estava fazendo era o pessoal. Uma pessoa pode ter mais que um ex-líbris, pode separar por coleção, por áreas.


Na primeira conversa, ela já havia eleito um elemento importante: a Vitória de Samotrácia - a escultura da deusa grega Nice, exposta no Louvre - além de gosto por leitura e artes, e também fotografia. O primeiro rascunho foi uma interpretação da Vitória, como se ela estivesse segurando um livro fiz também uma versão dela emergindo do livro aberto.


Ao mesmo tempo estava decidindo o estilo das palavras, costumo empregar na palavra “ex-líbris” uma família de letras diferente da do nome do proprietário. A princípio havia escolhido a letra gótica para o ex-líbris, num formato inclinado, mas posteriormente alterei para uma fonte de estilo mais clássico e regular. Nesses pequenos detalhes procuro passar também alguma informação sobre estilo e personalidade.


Após a primeira versão da Vitória, minha amiga artista Helena Freddi sugeriu mover o busto para silhueta do ex-líbris, trazendo uma forma externa interessante. A Mary achou interessante essa versão, e então fui caminhando para a vetorização, ou seja, desenhar no computador. Os carimbos personalizados são gravados a laser, e o vetor combinado com o laser permite uma boa gravação do polímero (a “borracha” do carimbo).




Houve a inclusão da divisa com a descrição Carpe Diem, e continuamos a experimentação de famílias de letras.

Consegui trazer o pinheirinho, pois “Komatsu” significa “pequeno pinheiro” na língua japonesa.


É importante no ex-líbris que os elementos interajam entre si, e que haja uma seleção de elementos, não cabem todos que desejamos. A câmera fotográfica, por exemplo, acabou saindo e voltou na forma circular da objetiva, que no último modelo, circunda o ex-libris. A escolha da câmera fotográfica, segundo a Mary, é uma das paixões na vida dela.

Os elementos como as borboletas, pincel e o livro aberto são elementos que trazem um pouco do seu espírito livre e de apreciadora da natureza e das artes. O livro aberto permaneceu como símbolo da busca pelo conhecimento e também há uma pena, que traz a ideia de que sua história está sendo escrita.

Um detalhe importante, acabei optando por manter a palavra em latim, “ex libris”(sem hífen e sem acento), por conta do Carpe diem, que também está em latim. Embora o nome da proprietária não seja latim, o Carpe diem é, e em quantidade de texto, é maioria. Esse assunto da palavra em latim, em português, ou de outras maneiras, é bastante polêmico. A orientação do Manual de Ex-librística, do Fausto Moreira Rato, que orienta a deixar a palavra em latim caso o nome do ex-librisado (proprietário) esteja em latim. Eu fiz essa escolha pessoal em escrever em latim, e acredito que é possível entender do que se trata: um ex-líbris.

Ao final, acredito que a composição ficou interessante e delicada, como a própria Mary. A sensação de leveza, uma característica que eu gosto de trazer nas composições, traz uma ideia de brisa presente. Assim como toda a técnica e formato, há limitações de tamanho e detalhes, que são desafios e fazem parte do exercício de síntese. Por conta de tantos movimentos de pesquisa e experimentação, acabo me dedicando a um ou dois ex-líbris por vez.

A finalização do ex-líbris foi numa caixa, com o nome gravado externamente e internamente, com a carimbeira, o carimbo, a ficha de apoio ao colecionador e alguns papéis avulsos. O carimbo é um formato que hoje em dia remete a um ato muito burocrático, e para que o ex-líbris não fique solto numa gaveta, eu construí essa proposta de caixa, para que haja uma ideia de ritual, de momento de importante significado.


"Os livros nos trazem um tipo de riqueza imaterial e intelectual, que uma vez adquirida, nos pertence permanentemente. Acredito que o ex-líbris, além de uma marca de propriedade, traz para o livro também a história de quem o leu, como um gesto de retribuição. Trata-se menos de um assunto de propriedade do que de significados históricos acerca de leitura e conhecimento."
Bruna Kim





*Bruna Kim - Bacharel em Artes Visuais pelo Centro Universitário Belas Artes São Paulo, fez o primeiro ex-líbris em 2009. Já atuou nas áreas de exposição, museu, merchandising e publicidade. Estudou computação gráfica e marcenaria, e atualmente trabalha no ensino e prática de gravura e da marcenaria.






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