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O ex-líbris como elo entre irmãos


Por Mary Komatsu*


Entre as muitas curiosidades do universo dos ex-líbris, chama atenção o caso de irmãos que optaram por compartilhar uma mesma imagem como marca de propriedade, diferenciando-se apenas por pequenas variações gráficas ou iniciais. Esse tipo de escolha revela afinidades profundas — intelectuais, afetivas ou simbólicas — que vão além do uso individual do livro.


Um exemplo brasileiro é o dos irmãos Paulo e Raymundo Ottoni Castro Maya. Embora Paulo seja mais frequentemente lembrado por seu interesse em temas políticos, sua biblioteca particular revela um perfil mais complexo: nela encontram-se livros de poemas eróticos, peças de teatro e obras de diferentes gêneros, todos identificados com sua marca de propriedade. À primeira vista, Paulo parece ter um temperamento menos aventureiro do que o do irmão Raymundo, mas ambos compartilham exatamente o mesmo tema em seus ex-líbris.


Ex-líbris de Paulo de Castro Maya.                                 Gravado na Maison Agry.
Ex-líbris de Paulo de Castro Maya. Gravado na Maison Agry.

Ex-líbris de Raymundo de Castro Maya.                          Gravado na Maison Agry.
Ex-líbris de Raymundo de Castro Maya. Gravado na Maison Agry.

Os ex-líbris de Paulo e Raymundo Ottoni Castro Maya apresentam a mesma ilustração: um centauro acompanhado da divisa latina Carpe Diem (“Aproveite o dia”), símbolo clássico ligado à intensidade da vida, ao prazer e à consciência do tempo. A única distinção entre eles está nas iniciais: “P”, para Paulo, e “R”, para Raymundo. Ambos foram gravados na Maison Agry, reforçando a ideia de uma escolha conjunta e consciente, quase como uma identidade visual compartilhada entre irmãos.


Irmãos Goncourt
Irmãos Goncourt

O ex-líbris dos irmãos Goncourt foi idealizado e gravado por Jules de Goncourt, sob orientação do artista Gavarni (1804–1866). A imagem apresenta as letras “E” e “J”, iniciais de Edmond e Jules, posicionadas diante de dois dedos da mão, símbolo de afinidade espiritual, união e solidariedade fraterna. Assim como no caso dos Castro Maya, o ex-líbris funciona como um emblema compartilhado, expressando a inseparabilidade intelectual dos irmãos.


Ex-líbris dos irmãos Goncourt.
Ex-líbris dos irmãos Goncourt.

Esses exemplos mostram que o ex-líbris vai muito além de uma simples etiqueta de propriedade. Quando irmãos escolhem dividir uma mesma imagem, o ex-líbris se transforma em um símbolo de identidade coletiva, revelando laços de cumplicidade, projetos comuns e uma forma singular de estar no mundo dos livros. É a biblioteca, mais uma vez, atuando como espaço de memória, afeto e construção simbólica.

 

REFERÊNCIAS


BATISTA, Denise Maria da Silva. Erotismo, arte e memória nos ex-líbris da coleção dos Museus Castro Maya. Canal Caçadora de Ex-líbris, 2023. Série Bibliotecas, 8.


SILVA, Alberto Costa e.; MACIEL, Anselmo, org. O livro dos ex-líbris. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; São Paulo: IMESP, 2014.



*Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris.

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