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O resgate de um ex-librista: vestígios da relação de Homero Pires com os ex-líbris e o colecionismo

Atualizado: 22 de abr.

Raphael Diego Greenhalgh*

Mary Komatsu**


A coleção de ex-líbris do político, advogado, jornalista e bibliófilo Homero Pires provavelmente não foi encontrada “incólume” em meio a uma série de outros exemplares, conforme atesta Stella Maris Bertinazzo, no livro Ex libris: pequeno objeto do desejo. Junto a ela, na Seção de Obras Raras da Biblioteca Central (BCE) da Universidade de Brasília (UnB), estão algumas correspondências trocadas com outros colecionadores e documentos que ajudam a traçar, mesmo que de forma fragmentária, a formação de sua coleção, além de atestar a participação de Homero Pires em determinados círculos sociais e em alguns momentos importantes para o ex-librismo brasileiro. Na análise deste material, buscamos extrair desta documentação alguns elementos que revelem Homero Pires enquanto ex-librista, buscando também entender algumas facetas do colecionismo de ex-líbris entre as décadas de 1920 e 1960.


Imagem 1 - Homero Pires. Fonte: Câmara dos Deputados

Homero Pires era baiano de Ituaçu e foi deputado federal por vários mandatos, tendo participado como constituinte para a Carta Magna de 1934. Ele foi diretor da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e atuou como professor universitário nas Faculdade de Direito da Bahia e Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guanabara, sendo membro também da Academia Baiana de Letras. Foi ainda Diretor e Redator-chefe dos jornais O Estado e O Imparcial, ambos de Salvador[i]. Após a sua morte, sua biblioteca particular foi adquirida pela UnB, em maio de 1963. Junto aos livros acompanharam diversas outras obras importantes, como, por exemplo, os manuscritos das obras Água-mãe, de José Lins do Rego, e As Razões do Coração, de Afrânio Peixoto, ambos com dedicatórias dos imortais a Homero Pires. Certamente sua coleção de ex-líbris e a documentação aqui analisada vieram nesta aquisição.

Imagem 2 - Diploma de sócio-contribuinte do Clube Internacional de Ex Libris. Fonte: acervo da Seção de Obras Raras da BCE/UnB.

O nome de Homero Pires figura entre os 17 colecionadores que participaram da 1ª Exposição Brasileira de Ex-libris, que ocorreu em maio de 1942, no Museu Nacional de Belas Artes, da cidade do Rio de Janeiro. No catálogo desta exposição é possível verificar que ele disponibilizou para o evento 25 ex-líbris, de figuras como Oswaldo Cruz, Eduardo Prado, Alfredo Pujol, entre outros, incluindo também o seu próprio. Interessante notar que na relação dos colecionadores participantes da exposição, não consta que ele era vinculado à Sociedade Brasileira de Amadores de Ex-Libris (S.A.B.E.L.), informação que aparece à frente de outros nomes. Contudo, sabemos que ele foi sócio-contribuinte do Clube Internacional de Ex libris desde a sua fundação, em 1949.

Na documentação uma outra curiosidade, um desenho, provavelmente a nanquim, para um ex-líbris de Homero Pires, do famoso pintor Galdino Guttmann Bicho, com uma ave preta com asas abertas ao fundo, um livro fechado à frente, onde vinha a inscrição “Ex-libris de Homero Pires” em sua capa, e dois ramos na parte de baixo da imagem. A lápis Homero Pires escreveu: “não me agradou”.

Imagem 3 - Ex-líbris de Homero Pires. Fonte: Bertinazzo, Stella Maris. Ex libris: pequeno objeto do desejo.

Mesmo fazendo um outro ex-líbris próprio (Imagem 3), aparentemente ele não o colava com tanta frequência em suas obras, ao menos não nos livros dos séculos XVI e XVII da sua coleção, afixando-o em apenas sete exemplares, de 92 que lhe pertenceram, conforme verificou Raphael Greenhalgh, no artigo Homero Pires: o colecionismo bibliográfico e as marcas de proveniência. Isso provavelmente se explica devido a sua predileção por anotações manuscritas nos volumes, tanto para a marcação de posse, contendo além da sua assinatura, a data e o local de compra, como também para registro de suas pesquisas bibliográficas sobre a obra.

Sem considerar as variantes (de cor, tamanho, papel, etc.), a coleção presente na BCE, assinalada como pertencente ao Homero Pires, apresenta 165 exemplares, contando as variantes e duplicatas, o total passa a ser de 175 exemplares. Mas, vários são os indícios de que sua coleção, provavelmente, era ainda maior. Dos 25 ex-líbris que ele expôs em 1942, em 22 há a indicação do proprietário no catálogo, e destes, apenas cinco se encontram em sua coleção atualmente. Somam-se também à coleção de Homero Pires os ex-líbris que foram enviados a ele por outros colecionadores e que ainda estão anexados às correspondências, que devem ser considerados da sua coleção, como por exemplo, aqueles enviados pelo famoso ex-librista Manuel Esteves (Imagem 4). Fazem parte desta coleção, exemplares de ex-líbris da Biblioteca Nacional, do Visconde de Cavalcanti, Elysio de Carvalho, Affonso Arinos de Mello Franco, Solidonio Leite, Álvaro Moreyra, Nelson Coelho de Senna, entre outros.

Imagem 4 - Ex-líbris enviados por Manoel Esteves em 1953. Fonte: acervo da Seção de Obras Raras da BCE/UnB.

Outra pista que temos de que sua coleção era ainda maior que a atual e que provavelmente não estava “incólume” como pensou Stella Maris, é o bilhete da Viscondessa de Cavalcanti, de 1928. Encontrado nas correspondências de Homero Pires, ele mostra que ela enviou a ele o seu ex-líbris e o de seu marido. O único exemplar dela na BCE hoje, não está na coleção atribuída ao Homero Pires, mas na coleção geral, sinalizando, possivelmente, que o ex-líbris enviado por ela ao Homero Pires não estava vinculado à coleção dele quando a Stella Maris teve contato pela primeira vez com todo o acervo. Vale destacar que Ubiratan Machado, no Livro dos Ex-líbris, diz que o ex-líbris da Viscondessa de Cavalcanti é considerado pelos estudiosos do tema, “o mais belo trabalho executado por Agry para um brasileiro”.


Imagem 5 - Ex-líbris da Viscondessa de Cavalcanti. Fonte: Bertinazzo, Stella Maris. Ex libris: pequeno objeto do desejo.

No material há ainda um documento datilografado, em 12 folhas numeradas, intitulado “Coleção de ex-libris de Homero Pires”, que somado aos outros indícios, seria o ateste final de que sua coleção foi ainda maior do a que conhecemos hoje. Nele estão listados cerca de 350 itens, organizados em “De brasileiros ou de presidentes do Brasil”, “De portugueses” e “De outras nacionalidades”. No verso das folhas, o papel está timbrado com “M. E. S. - Casa de Ruy Barbosa”, sendo provavelmente, do período em que Homero Pires era diretor desta instituição, no início da década de 1930. Ao pesquisarmos alguns dos nomes presentes na listagem citada anteriormente, vemos que alguns dos ex-líbris são encontrados apenas na coleção geral e outros não estão presentes no acervo da BCE.

O levantamento dos itens listados indica que alguns dos ex-líbris que provavelmente pertenceram à coleção de Homero Pires podem ser os que estão na coleção geral. Mas, infelizmente, essa é uma condição em que só é possível especular, pois nos itens não há nenhuma marca que possa indicar que eles eram do Homero Pires e não de outra pessoa. A partir da lista, podemos também supor que alguns itens se dissiparam antes da integração da coleção dele à BCE, pois muitos dos que estão relacionados nela, hoje não fazem parte do acervo desta biblioteca.



Imagem 6 - Correspondência com indicação de colecionadores. Fonte: acervo da Seção de Obras Raras da BCE/UnB.

Nas correspondências entre Homero Pires e outros colecionadores de ex-líbris, podemos ver, em parte, como se estruturava a rede de contatos entre os ex-libristas da primeira metade do século XX. Na imagem acima, por exemplo, é possível observar que era comum nestas cartas o envio de diversas etiquetas que continham os nomes e os endereços de vários colecionadores. De modo que, o destinatário poderia, a partir delas, estruturar uma lista de contatos para trocas de exemplares e informações, conseguindo ainda compartilhar as etiquetas duplicadas com outras pessoas. Desta forma, estas informações se somavam às das publicações especializadas, que frequentemente também disponibilizavam relações de colecionadores. Outra característica comum de parte destas correspondências era o envio de textos impessoais, impressos de forma padronizada, para comunicação com diversos ex-libristas, solicitando tanto o envio de exemplares para permuta, quanto a troca de contatos de outros colecionadores. Frequentemente esses impressos de solicitação de troca apresentavam o mesmo texto em múltiplos idiomas, mostrando como os colecionadores buscavam conexão com pares de diversas nacionalidades, como é o caso, por exemplo, do impresso (Imagem 7), escrito em português, espanhol, francês, inglês, alemão e holandês.


Imagem 7 – Impresso de solicitação de troca padrão de Jayme Borges de Araujo em seis idiomas. Fonte: acervo da Seção de Obras Raras da BCE/UnB.

Por vezes, apesar da padronização do texto, os colecionadores se preocupavam com a estética dos impressos, incluindo junto às mensagens, uma bela ornamentação, como podemos ver na (Imagem 8).


Imagem 8 - Impresso de solicitação de troca ornamentado de J. Cardoso Gonçalves. Fonte: acervo da Seção de Obras Raras da BCE/UnB.

Na documentação, estão 29 cartas enviadas ao Homero Pires; daquelas que possuem datação, a mais antiga é de 10 de dezembro de 1929 e a mais recente de 03 de fevereiro de 1960. Entre as anotações manuscritas de Homero Pires e as informações presentes nestas cartas, verificamos o envio de ao menos 67 ex-líbris a ele. Mas, certamente o número é bem maior, já que em muitas delas há apenas a informação do envio de exemplares, sem indicar a quantidade exata. Contudo, este número já demonstra o quanto a circulação dos endereços dos colecionadores era importante para o crescimento das coleções. Pois vários dos exemplares foram enviados na tentativa de estabelecer uma permuta, de boa fé, sem garantias de que o remetente receberia também ex-líbris do destinatário.

As correspondências foram, principalmente, com colecionadores brasileiros, de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia, e portugueses, de Lisboa e Porto. Estas cartas revelam não só os contatos feitos por Homero Pires, mas também podem ajudar a traçar o percurso histórico de determinadas coleções, colecionadores e até mesmo do ex-librismo nacional e lusitano. Neste acervo se encontram, por exemplo, quatro cartas enviadas por Manuel Mesquita dos Santos. Nelas, o remetente fala de trocas de ex-líbris entre os dois correspondentes, pede exemplares e endereços de outros colecionadores, dá notícias de sua coleção e de um artigo que escreveu sobre ex-líbris brasileiros, indica uma coleção à venda, entre outros assuntos.

Verifica-se em suas cartas que Mesquita dos Santos era um colecionador preocupado em ampliar sua coleção com representantes nacionais, em descrever e entender exaustivamente a história de seus itens e também em divulgar o ex-librismo brasileiro. Em carta não datada, ele dizia ao Homero Pires: “para aumentar as nossas coleções, e para fazer conhecido o movimento ‘ex-librista brasileiro’ - lembrei-me de propor a organização de uma lista onde figurem os endereços dos colecionadores brasileiros de ex-libris. Essa lista deveria aparecer como fazendo parte de publicações de uma sociedade de colecionadores, que por exemplo se poderia chamar ‘Centro dos colecionadores brasileiros de ex-libris’”. Provavelmente, uma comunicação de 1928 ou 1929, bem anterior à criação da primeira associação de ex-libristas no Brasil, a S.A.B.E.L., em 1940.

Mesquita dos Santos informa em carta de 29 de novembro de 1928, que a pedido de Armando de Matos, diretor do Arquivo Nacional de Ex-libris, revista especializada de Lisboa, estava preparando um texto sobre ex-líbris brasileiros. Para isso, ele pedia ajuda ao Homero Pires que lhe informasse os ex-líbris nacionais que este conhecia e que não estavam relacionados na listagem que ele o enviava. No esforço de realizar um bom trabalho, levantando o maior número possível de itens, ele também comunica que a importante livraria J. Leite, do Rio de Janeiro, colocou à sua disposição todos os exemplares de sua coleção. Por intermédio de J. Leite, João Machado também enviou 6 ex-líbris ao Homero Pires, em maio de 1933, mostrando como costumavam cooperar entre eles os colecionadores.

A partir das correspondências de Homero Pires, verificamos também que a revista Arquivo Nacional de Ex-libris parece ter sido uma importante publicação para a troca entre colecionadores brasileiros e portugueses. Em carta de 20 de março de 1928, João de Vilhena busca estabelecer com Homero Pires a permuta de ex-líbris brasileiros ou de países americanos, em troca de exemplares europeus. Ele disse que soube há pouco que Homero Pires era assinante do Arquivo Nacional de Ex-libris, informando ser o responsável pela seção de estrangeiros e brasileiros desta publicação. Em outra carta não datada, Antonio Pires da Silva Machado informa ser membro do Boletim de trocas de ex-líbris da revista, enviando seu ex-líbris e solicitando que Homero Pires envie o seu e outros mais.

Buscamos aqui revelar um pouco do colecionismo praticado por Homero Pires e situá-lo dentro da história do ex-librismo brasileiro. Mesmo com a necessidade de pesquisas adicionais ao que foi relatado neste trabalho, vemos que seria possível que Homero Pires figurasse entre os nomes dos grandes colecionadores particulares do início do século XX. Seja pela extensão de sua coleção e importância de seus itens, como também pela sua participação em momentos precursores do ex-librismo em âmbito nacional e sua relação com outros colecionadores.


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[1] Informações retiradas dos sites da Câmara dos Deputados (https://www.camara.leg.br/deputados/130260/biografia) e da FGV (http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/pires-homero)


[1] Foto retirada de: https://www.camara.leg.br/deputados/130260/biografia

Agradecemos ao colecionador Luiz Felipe Stelling por toda a paciência e ajuda com as perguntas sobre aspectos da história do ex-líbris no Brasil. Assim como, pela leitura prévia e sugestões para melhorias neste texto.


*Raphael Diego Greenhalgh - Bibliotecário de Obras Raras da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (UnB) desde 2008, com Doutorado em Ciência da Informação pela UnB, cuja tese foi agraciada com o Prêmio Capes de Tese, edição 2015. Possui também Pós-doutorado em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), sobre censura a livros e à imprensa em Brasília durante a Ditadura Militar.

** Mary Komatsu - Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris.








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