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Sebastião Públio Dias da Silva: o ex-líbris de um quixote brasileiro

Por Mary Komatsu (Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris) 


A Espanha é campeã do mundo! Mas o país não conquista apenas títulos no futebol. A Espanha também é a terra de um dos maiores escritores da história da literatura universal: Miguel de Cervantes Saavedra (1547–1616), autor de O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, obra-prima que atravessou séculos e continua inspirando leitores, artistas e colecionadores em todo o mundo.


No Brasil, poucos demonstraram tanta admiração por Cervantes quanto o médico pernambucano radicado em São Paulo Sebastião Públio Dias da Silva. Sua paixão começou em 1948, quando adquiriu uma edição popular de Dom Quixote. O que parecia ser apenas a compra de um livro transformou-se em uma verdadeira missão de vida: reunir tudo o que fosse possível sobre Cervantes e sua obra.


Durante mais de vinte anos, Públio Dias formou uma extraordinária Coleção Cervantina, composta por mais de 1.500 volumes, incluindo 316 edições diferentes de Dom Quixote, algumas delas com até 36 tomos. Seu acervo reunia exemplares em dezenas de idiomas, edições raríssimas dos séculos XVII, XVIII e XIX, livros ilustrados por grandes artistas, exemplares em miniatura e edições de grande formato, tornando-se uma das mais importantes coleções cervantinas particulares do Brasil.


Sua paixão pelos livros também ficou registrada em seu ex-líbris, que retrata o próprio Dom Quixote, de figura alta e esguia, empunhando sua lança sobre um pergaminho onde se lê Públio Dias. Mais do que uma marca de propriedade, o ex-líbris revela a personalidade de seu dono: um colecionador que escolheu como símbolo de sua biblioteca o personagem que mais admirava.


Ex-líbris de Sebastião Públio Dias da Silva
Ex-líbris de Sebastião Públio Dias da Silva

A coleção foi construída não apenas por meio de aquisições, mas também graças à generosidade de amigos e intelectuais que compartilhavam de sua paixão. Entre os doadores estavam nomes como Manuel Bandeira, Jorge Amado, Ribeiro Couto, Américo Nasser, Murilo Mendes, Walter Benevides, entre outros, que contribuíram para enriquecer esse extraordinário acervo.


Após o falecimento de Sebastião Públio Dias da Silva, sua família preservou esse importante legado cultural ao doar a Coleção Cervantina Públio Dias à Universidade de São Paulo (USP). Hoje, o acervo integra as coleções do Sistema Integrado de Bibliotecas da USP (SIBi/USP) e reúne preciosas edições da obra de Miguel de Cervantes Saavedra, adquiridas ao longo de décadas ou recebidas de amigos e figuras ilustres, permanecendo à disposição de pesquisadores e amantes da literatura.


Ao celebrar a conquista da Espanha na Copa do Mundo, vale lembrar que algumas das maiores vitórias de um país não acontecem apenas nos gramados, mas também na cultura.


E o legado de Sebastião Públio Dias da Silva é prova disso: um brasileiro que transformou sua admiração por Cervantes em uma das mais importantes coleções cervantinas do país.


Seu ex-líbris, estampando a figura de Dom Quixote, continua simbolizando uma vida inteira dedicada aos livros, à memória e ao colecionismo.


Porque algumas paixões, assim como Dom Quixote, são eternas.

 

Fonte: HELENA, Arcelina. “Colecionar quixotes, uma aventura nada quixotesca”. Jornal do Brasil, Suplemento do Livro, 19 out. 1968

Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP, “Minuto USP: Cervantina”.



 

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