A vida entre livros: memória e legado de Mário Barata
- exlibrisbrasil2020
- há 4 dias
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Por Mary Komatsu (Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris)
A história de uma biblioteca particular ligada a uma personalidade do meio artístico ou intelectual pode ser compreendida não apenas pelo conteúdo de seus livros, mas também pelos vestígios deixados em cada exemplar: anotações, dedicatórias, marcas de leitura e escolhas temáticas. Esses sinais revelam percursos intelectuais, afetivos e criativos, transformando o conjunto em um retrato sensível de quem o constituiu.
Mais do que simples coleções de livros, essas bibliotecas são expressões vivas de uma época, de um pensamento e de uma rede de referências culturais. Funcionam como microcosmos que refletem debates, influências e transformações no campo das artes e do conhecimento. Cada volume contribui para a construção de uma memória que ultrapassa o objeto livro e alcança a história cultural mais ampla.
Quando bibliotecas particulares são incorporadas a instituições como universidades, bibliotecas públicas ou museus, ocorre uma mudança fundamental: o acervo privado torna-se patrimônio coletivo. Nesse processo, passam a ser reconhecidas como Coleções Especiais, preservadas de forma integrada, porém com identidade própria, garantindo não apenas o acesso ao conteúdo, mas também a preservação de sua dimensão simbólica e histórica.
Foi o que aconteceu com a biblioteca de Mário Barata (Rio de Janeiro, 1921–2007) que exemplifica esse percurso. Historiador da arte, museólogo, professor e crítico de arte, Barata teve atuação destacada no cenário cultural brasileiro e internacional. Foi conservador do Museu Nacional de Belas Artes, professor do Curso de Museologia e catedrático da Escola Nacional de Belas Artes, além de atuar na pós-graduação em História da UFRJ, onde recebeu o título de Professor Emérito. Participou ativamente de importantes instituições culturais, como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o ICOM, do qual foi um dos fundadores, e publicou obras fundamentais sobre história da arte, museologia e patrimônio cultural.

Mário Barata foi também frequentador assíduo da Biblioteca do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), espaço que integrava sua rotina de pesquisa. Foi nesse ambiente de estudo, que tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, durante o período em que atuei profissionalmente na Biblioteca do MNBA. O contato próximo, permitiu acompanhar de perto seu rigor intelectual, suas histórias, sua curiosidade constante e o respeito profundo que nutria pelos livros e pela instituição.
Após seu falecimento, parte significativa de sua biblioteca particular foi incorporada à Biblioteca da Escola de Belas Artes da UFRJ e à Biblioteca do Museu Nacional. Com o objetivo de identificar e valorizar essa coleção especial, sua neta, Ana Teles da Silva, idealizou a criação de um ex-líbris personalizado, com a ilustração de Mário Barata, desenhada por Emilia e Julia Teles da Silva. O desenho mostra a figura de Mário Barata em atitude concentrada de leitura, gesto que remete diretamente à sua vida dedicada ao estudo, à pesquisa e à reflexão crítica no campo da história da arte e da museologia.

O ex-líbris simboliza a preservação da memória, da identidade e da trajetória intelectual de Mário Barata, agora compartilhadas com o público e integradas ao patrimônio cultural brasileiro.



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