Onomatograma no universo dos ex-líbris
- exlibrisbrasil2020
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Por Mary Komatsu (Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris)
Você já ouviu falar em onomatograma?
O onomatograma é a representação gráfica do som. Não é apenas a palavra escrita — é o som transformado em forma visual. A letra ganha corpo, ritmo, movimento. Ela passa a ser desenho.
No universo dos ex-líbris, isso aparece quando a tipografia deixa de ser apenas identificação e se transforma em composição expressiva.
Hoje trago dois exemplos muito interessantes:

Ex-líbris “Paulo Cantos”
Neste ex-líbris, o caráter de onomatograma revela-se de forma clara e intencional. No canto esquerdo, o primeiro nome — Paulo — é organizado verticalmente, com a letra “A” ocupando o centro da composição como se fosse uma estrutura arquitetônica, quase um pórtico ou monumento tipográfico.
No lado direito, a palavra “Cantos” é construída de maneira estilizada, formando um elemento gráfico que sugere um rosto humano. A tipografia deixa de ser apenas escrita e passa a ser desenho, integrando som, forma e significado.
Abaixo, o lema em latim — “PAVLO MAJORA CANTEMVS” (“Cantemos coisas maiores”) — reforça a dimensão sonora da composição. O verbo cantemus (cantemos) evoca diretamente o som e a musicalidade, ampliando a ideia de onomatograma: o nome “Cantos” dialoga com o ato de cantar, criando uma relação poética entre identidade e sonoridade.
Trata-se de um onomatograma sutil e conceitual, em que o som não é representado de maneira explícita, mas sugerido pela organização tipográfica, pela musicalidade do lema e pela expressividade formal das letras.
Paulo Cantos (1892–1979) foi editor, bibliófilo, pedagogo e tipógrafo amador, ocupando um lugar singular na modernidade artística em Portugal. Entre 1920 e 1960, escreveu, desenhou e editou cerca de 70 títulos, deixando uma contribuição significativa para a cultura gráfica e editorial portuguesa.

Ex-líbris do Liceu Nacional Rio Branco
No segundo exemplo vemos o ex-líbris que pertence ao antigo Liceu Nacional Rio Branco, fundado em 1926. Em 1945, a instituição foi adquirida por José Ermírio de Moraes e, no ano seguinte, doada à Fundação de Rotarianos de São Paulo, passando a consolidar-se como o tradicional Colégio Rio Branco.
No centro, a figura estilizada do pelicano, ave simbólica associada ao sacrifício e à dedicação — repousa sobre um livro. Aqui notamos o pelicano foi construída com linhas que lembram letras — quase como se o desenho fosse também caligrafia. Aqui está representado com as letras “L”, “N”, “R” e “B”, as iniciais do proprietário (Liceu Nacional Rio Branco).
A composição é clássica e arquitetônica: duas colunas sustentam um pergaminho com o lema em latim: “PER ASPERA AD ASTRA” (Pelas dificuldades até as estrelas)
A inscrição “EX-LIBRIS” na base reforça a identidade institucional e a função de pertencimento.
Você já encontrou um ex-líbris que transforma letras em arquitetura ou música visual?



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