Homenagem da Caçadora de Ex-líbris a Rizio Bruno Sant'ana
- exlibrisbrasil2020
- 24 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Por Mary Komatsu*

Hoje, 24 de dezembro, completam-se quatro anos desde que o bibliotecário Rizio Bruno Sant’ana partiu deste mundo. Profissional dedicado, Rizio integrou o setor de Obras Raras e Especiais da Biblioteca Mário de Andrade desde a década de 1980.
Ao longo de sua trajetória, especializou-se em preservação e restauro no Brasil e no exterior, acumulando profundo conhecimento sobre conservação, catalogação de acervos raros e sobre a história do livro e das bibliotecas.
Sua competência o levou a assumir, entre 2001 e 2002, a direção da Biblioteca Mário de Andrade. Depois, retornou ao setor de Obras Raras e Especiais, onde atuou como coordenador e onde permaneceu até os últimos anos, sempre contribuindo com generosidade e rigor técnico.
Foi através dos ex-líbris que tive a alegria de conhecer o Rizio, integrante do Grupo Ex-Líbris Brasil (GELB). Ele sempre ofereceu valiosas contribuições ao grupo, compartilhando saberes, memórias e percepções sobre essa arte em miniatura.
Cheguei a convidá-lo para uma live no canal da Caçadora de Ex-líbris, mas, infelizmente, não tivemos tempo de realizar esse encontro. Ainda assim, suas mensagens enviadas pelo WhatsApp do GELB permanecem — reflexões sensíveis que agora transcrevo em forma de poesia, como homenagem.
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Quando olho um ex-líbris, imagino sempre uma grande biblioteca por trás.
Não uma biblioteca feita apenas de paredes e estantes,
mas aquela que vive invisível
— levantada pelo gesto silencioso de quem marca um livro como seu.
O ex-líbris nasceu simples, tímido:
uma pequena etiqueta colada na contracapa,
um sussurro de pertencimento.
Era apenas isso:
o aviso delicado de que aquele livro tinha um lar.
Com o tempo, porém, essa marca de propriedade ou procedência
virou outra coisa:
virou memória.
Virou trilha.
Virou identidade gráfica vagando pelo mundo.
Uma coleção de ex-líbris, hoje, é quase uma coleção de fantasmas.
São ex-ex-líbris
marcas órfãs, que já não guardam livros,
mas preservam histórias, intenções, traços,
um pedaço da alma de quem as criou.
E como testemunham!
Quando houve o furto na Biblioteca Mário de Andrade,
a chama dessas pequenas marcas acendeu um rastro.
Os ladrões arrancaram carimbos, números, sinais de arquivo...
mas deixaram o ex-líbris antigo,
porque ele valorizava o exemplar
— mal sabiam que era justamente ele
que traria os livros de volta para casa.
Há também o lado curioso do tempo:
os ex-líbris que jamais residiram em livros.
Criados apenas para colecionar,
para circular pelo mundo sem jamais tocar uma lombada.
E há os falsos
como o do Conde Drácula, exemplo preciso
da fronteira fina entre uma imagem qualquer
e um verdadeiro ex-líbris,
aquele que nasce para servir ao livro,
e não apenas à estética.
E os numerados? Assinados?
Que sentido há?
O colecionador manda fazer cem...
mas não para de comprar livros.
Como numerar um futuro que cresce sem saber quantas páginas terá?
O ex-líbris vive de acompanhar uma biblioteca viva,
não de limitar-se a uma sequência finita.
E, no entanto, o desejo humano encontrou caminhos tortos.
A troca, o colecionismo, a vaidade
tudo isso empurrou o ex-líbris para longe dos livros,
longe da sua função primeira.
Ele "fugiu", talvez.
Perdeu-se nas mãos que o exibem como fotografia, caricatura, brasão,
símbolo de poder, eco de heráldica.
Mas ainda assim, por trás de cada ex-líbris
mesmo destes que se afastam
algo resiste.
Um rumor de biblioteca.
Um cheiro de papel.
O sonho de um livro que o reclame.
O ex-líbris pode até ter escapado,
mas nunca deixou de apontar para aquilo que o criou:
a íntima, eterna, silenciosa relação
entre o leitor e o seu livro.
Poema criado por IA a partir das mensagens deixadas por Rizio Bruno Sant’ana (in memoriam)
Gratidão, Rizio Bruno!
Sua presença segue viva em cada livro, em cada ex-líbris e em cada gesto de dedicação ao conhecimento.
*Mary Komatsu - Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris.



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