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Homenagem da Caçadora de Ex-líbris a Rizio Bruno Sant'ana


Por Mary Komatsu*



Hoje, 24 de dezembro, completam-se quatro anos desde que o bibliotecário Rizio Bruno Sant’ana partiu deste mundo. Profissional dedicado, Rizio integrou o setor de Obras Raras e Especiais da Biblioteca Mário de Andrade desde a década de 1980.

Ao longo de sua trajetória, especializou-se em preservação e restauro no Brasil e no exterior, acumulando profundo conhecimento sobre conservação, catalogação de acervos raros e sobre a história do livro e das bibliotecas.

Sua competência o levou a assumir, entre 2001 e 2002, a direção da Biblioteca Mário de Andrade. Depois, retornou ao setor de Obras Raras e Especiais, onde atuou como coordenador e onde permaneceu até os últimos anos, sempre contribuindo com generosidade e rigor técnico.

Foi através dos ex-líbris que tive a alegria de conhecer o Rizio, integrante do Grupo Ex-Líbris Brasil (GELB). Ele sempre ofereceu valiosas contribuições ao grupo, compartilhando saberes, memórias e percepções sobre essa arte em miniatura.

Cheguei a convidá-lo para uma live no canal da Caçadora de Ex-líbris, mas, infelizmente, não tivemos tempo de realizar esse encontro. Ainda assim, suas mensagens enviadas pelo WhatsApp do GELB permanecem — reflexões sensíveis que agora transcrevo em forma de poesia, como homenagem.

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Quando olho um ex-líbris, imagino sempre uma grande biblioteca por trás.

Não uma biblioteca feita apenas de paredes e estantes,

mas aquela que vive invisível

— levantada pelo gesto silencioso de quem marca um livro como seu.


O ex-líbris nasceu simples, tímido:

uma pequena etiqueta colada na contracapa,

um sussurro de pertencimento.

Era apenas isso:

o aviso delicado de que aquele livro tinha um lar.


Com o tempo, porém, essa marca de propriedade ou procedência

virou outra coisa:

virou memória.

Virou trilha.

Virou identidade gráfica vagando pelo mundo.


Uma coleção de ex-líbris, hoje, é quase uma coleção de fantasmas.

São ex-ex-líbris 

marcas órfãs, que já não guardam livros,

mas preservam histórias, intenções, traços,

um pedaço da alma de quem as criou.


E como testemunham!

Quando houve o furto na Biblioteca Mário de Andrade,

a chama dessas pequenas marcas acendeu um rastro.

Os ladrões arrancaram carimbos, números, sinais de arquivo...

mas deixaram o ex-líbris antigo,

porque ele valorizava o exemplar

— mal sabiam que era justamente ele

que traria os livros de volta para casa.


Há também o lado curioso do tempo:

os ex-líbris que jamais residiram em livros.

Criados apenas para colecionar,

para circular pelo mundo sem jamais tocar uma lombada.

E há os falsos

como o do Conde Drácula, exemplo preciso

da fronteira fina entre uma imagem qualquer

e um verdadeiro ex-líbris,

aquele que nasce para servir ao livro,

e não apenas à estética.


E os numerados? Assinados?

Que sentido há?

O colecionador manda fazer cem...

mas não para de comprar livros.

Como numerar um futuro que cresce sem saber quantas páginas terá?

O ex-líbris vive de acompanhar uma biblioteca viva,

não de limitar-se a uma sequência finita.


E, no entanto, o desejo humano encontrou caminhos tortos.

A troca, o colecionismo, a vaidade

tudo isso empurrou o ex-líbris para longe dos livros,

longe da sua função primeira.

Ele "fugiu", talvez.

Perdeu-se nas mãos que o exibem como fotografia, caricatura, brasão,

símbolo de poder, eco de heráldica.


Mas ainda assim, por trás de cada ex-líbris

mesmo destes que se afastam

algo resiste.

Um rumor de biblioteca.

Um cheiro de papel.

O sonho de um livro que o reclame.


O ex-líbris pode até ter escapado,

mas nunca deixou de apontar para aquilo que o criou:

a íntima, eterna, silenciosa relação

entre o leitor e o seu livro.


Poema criado por IA a partir das mensagens deixadas por Rizio Bruno Sant’ana (in memoriam)

 

Gratidão, Rizio Bruno!

Sua presença segue viva em cada livro, em cada ex-líbris e em cada gesto de dedicação ao conhecimento.


*Mary Komatsu - Bibliotecária e administradora do canal Caçadora de Ex-líbris.

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